Viva a vida !

Fernanda Vargas:
Mãe, Esposa, Advogada Especializada em direito tributário e sócia do Martins Freitas Advogados Associados desde 2002;
Com inúmeros cursos de especialização em apurações fiscais e atualizações tributárias
Conselheira do Grupo de Apoio à Adoção de Volta para Casa de Divinópolis com apoio em todo o Brasil;
Colunista na área comportamental em várias mídias, como Jornal Agora de Divinópolis, Jornal O Papel de Lagoa da Prata, Jornal Gazeta Pará-minense de Pará de Minas, Revista Glamour de Oliveira e Revista Xeque Mate.

Alguns terão sorte, mas nem todos terão tempo para despedidas na porta do CTI

Desde março de 2020, muitos conhecidos já ficaram na sala de espera de uma UTI ou de um CTI, esperando notícias de um parente querido internado com Covid. Grande parte destas pessoas que conheci disseram que mudaram suas vidas após esta experiência. Literalmente, viram que a vida realmente é uma só e que, muitas das vezes, não terão tempo para se despedir de quem amam e muito menos para pedir perdão. Quem teve a sorte de se recuperar do Covid viu que a vida é muito frágil para não serem gratos agora. Seja a pessoa que se recuperou do Covid e teve mais uma chance na vida, seja o parente que ficou dias na porta do hospital, a maioria destas pessoas, possivelmente, aprendeu que a vida é curta demais e que precisam amar mais, reclamar menos e agradecer sempre.

 

A sala de espera da UTI é um local onde todos os dias, num horário fixo, várias famílias passam a se conhecer, trocam suas histórias, seus lamentos e medos. Viram uma grande família, uma torcendo pela melhora do familiar alheio; e isso é muito mágico, pois demonstra como o ser humano, no momento da dor, torna-se tão companheiro, compreensível e prestativo.

 

Em fevereiro deste ano, minha mãe, Maria Eni Vargas, ficou por quase trinta dias dentro de um hospital. É simplesmente aterrorizante como uma pessoa saudável chega a ficar totalmente inválida em uma cama após ter Covid na forma grave. Somente quem trabalha na área de saúde ou quem presenciou algum parente no leito de um hospital, por causa do Covid, sabe exatamente do que estou falando. A pessoa perde simplesmente seus movimentos, suas forças e se torna incapaz de se colocar em pé, por alguns minutos, sem precisar de oxigênio e ajuda. É imaginável o que este vírus faz com um ser humano.

 

Nesses quase trinta dias que estive diariamente no hospital para ter notícias da minha mãe, eu conheci a porta da tristeza e da dor. Esta porta dá acesso aos leitos do UTI ou CTI. Após um parente passar por esta porta, entrando, pode acontecer, infelizmente, de ser a última vez que você o verá.

 

Presenciei, nestes dias no hospital, muitos filhos não conseguirem se despedir de seus pais; é muita dor num único local. Tudo acontece tão rapidamente que as pessoas não têm tempo de assimilar nada; como um filho que não conseguia compreender como que o seu pai com apenas cinquenta anos e que estava apenas alguns dias atrás cuidando da roça poderia estar morto? Como uma mãe que estava em casa feliz e saudável, em apenas quatro dias estaria entubada? Conheci uma pessoa incrível que perdeu, num único mês, seu sogro e sua mãe; e um dos casos que mais me chocou foi de um senhor de mais de oitenta anos que chegou aflito ao hospital, pois sua mulher havia chegado minutos antes de ambulância e ele disse: eu só queria me despedir... E é a mais dura realidade: não dá tempo de nos despedirmos. Poucos terão a sorte de reencontrar o ente querido.  

 

Diariamente, na sala de espera por notícias, você vê a fragilidade humana de perto, você presencia o amor, a gratidão e o lamento daqueles que choram dizendo: por que eu não dei apenas mais um abraço, por que eu não o visitei só mais uma vez, por que eu não me desculpei, por que eu perdi tanto tempo discutindo por coisas que agora não têm nenhum valor. É um verdadeiro drama emocional. Nesta sala de espera, sempre alguém terá uma notícia desagradável, como uma piora, um entubamento, uma perda...

 

A porta da tristeza e da dor da UTI às vezes se torna a porta da esperança, e eu fui uma das pessoas que presenciou esta porta se abrir. O dia que minha mãe saiu do CTI, mesmo sem conseguir andar, eu me senti abençoada. Foi triste sair daquele andar do hospital, deixando para trás, vários filhos que ainda ficariam dias ou semanas seguidas na sala de espera olhando por algumas horas a porta da dor e da esperança.

 

Mas toda dor tem seu ensinamento, e foi com tamanha dor que aprendi muitas coisas. Uma delas foi que se você quer mudar algo em você, precisa ser agora, pois não existirá outra chance. Nem mesmo na única certeza que temos que é a vida atual, não se pode ter certeza alguma, não existe garantia de que você terá ainda mais dez anos para realizar seus sonhos, para concluir seu curso, para se casar, para mudar de emprego, para fazer as pazes ou para pedir perdão.

 

Você não precisa perder quem você ama como marido, filhos, amigos e parentes para se lamentar eternamente devido ao remorso e ao sentimento de culpa. A gratidão significa ser grato, ser agradecido pelo o que fizeram por você ou para você. E temos que ser gratos em vida. “ Os mortos recebem mais flores do que os vivos porque o remorso é mais forte que a gratidão” (Diário de Anne Frank).

 

A vida é muito curta para viver discutindo, para viver brigado com os pais e irmãos, a vida é muito curta para viver reclamando de tudo e de todos, a vida é curta demais para culpar eternamente alguém pelas suas frustrações. A vida é muito curta para não ser feliz agora.

 

"Enquanto essa vacina tão esperada não chega para todo mundo, é bom lembrar que contra o preconceito, intolerância, a mentira, a tristeza, já existe vacina: é o afeto, é o amor. Então, diga o quanto você ama a quem você ama. Não fique só na declaração, não, gente. Ame na prática, na ação. Amar é ação, amar é arte" Paulo Gustavo

 

 

Ninguém sonha em ser madrasta! É um cargo que ninguém cobiça!

Quando criança, a maioria das minhas amigas sonhavam em se casar, algumas sonhavam em ter filhos e outras sonhavam apenas em trabalhar. Já tive amigas que sonhavam em ser delegada, aeromoça, modelo, médica, veterinária e, um dia, achar um príncipe encantado, casar e ter filhos... A maioria das minhas amigas conseguiram, são felizes em seus castelos com seus príncipes.

Mas não conheci ninguém na minha infância, adolescência e nem na fase adulta que sonhou em ser madrasta. Acho que seria loucura demais para alguém jovem querer um pesadelo deste.

Seria de uma insanidade desejar: Quero encontrar um homem divorciado, bem mais velho do que eu, que tenha uma despesa fixa com a família anterior, que não seja da idade dos meus amigos e que tenha filhos que jamais irão me tolerar. Quero um homem que me traga mais problemas que soluções e que me renda boas sessões de terapia! Isto é um pesadelo! Ninguém sonha com isso. Ninguém!

 

Quando nos casamos, não pensamos, em um primeiro momento, que iremos nos separar; as separações acontecem por motivos totalmente alheios à nossa vontade. Grande parte dos relacionamentos dão muito certo e na verdade não podemos julgar que um casamento que durou poucos anos não deu certo: na verdade deu certo por um determinado período de tempo, apenas não durou até a morte de um dos cônjuges. Mas nem todos têm escolhas acertadas, ou até mesmo sorte, e a vida de muitos casais tomam caminhos tão diferentes que, em curto espaço de tempo, encontram-se divorciados.

Faz parte da natureza humana querer estar ao lado de alguém, e não é porque você se separou, seja o motivo qual for, que você será condenado a viver sozinho para sempre. Infelizmente, a quantidade de divórcios tem aumentado, e com isso está se tornando natural as pessoas refazerem suas vidas afetivas e se casarem pela segunda vez. E toda pessoa, ao procurar um novo relacionamento, pelo menos tenta achar alguém “leve e solto”. Embora o amor quando chega para valer é “firme e forte”. Ele derruba seus planos e muitos dos seus sonhos.

 

E quando o seu novo “príncipe encantado” já tem seus próprios filhos, será a vez de saber como madrasta se você tem sorte ou azar na vida. A maioria das madrastas, ao conhecer os enteados, tentará agradá-los, respeitá-los, dar-lhes carinho e cuidar deles tão bem quanto seus pais. Jamais se cogita em substituir uma mãe viva. Ao contrário dos contos de fadas, onde a madrasta entrava em cena, quando o homem ficava viúvo, aí se tornava a mãe substituta.

O problema é que a madrasta nem sempre será bem-vinda. As pessoas gostam de achar problemas aonde não existe, gostam de ser vítimas e achar culpados.

As madrastas sofrem muito devido ao excesso de comparação, pois em tudo que ela for pior que a primeira esposa ela será criticada e em tudo que for melhor ela será odiada. Dificilmente agradará: isto é uma maneira inconsciente que os filhos encontram de demonstrar para a mãe que ela é melhor. Mas isso, a longo prazo, gera infelicidade e distancia as pessoas.

E é doloroso entrar em um relacionamento onde sem ao menos conhecerem a nova mulher do pai, ela já é vista e rotulada como a madrasta dos contos de fadas.

A realidade é mais fácil se for vista do coração e não por meio de crenças ultrapassadas de que, pelo simples fato de ser uma segunda esposa, consequentemente é má, veio fazer o mal ou veio explorar o outro. E a maioria das madrastas entram com as melhores das intenções, entram para somar e agregar valores. O mundo não pode ser visto como se a maioria das pessoas fossem ruins. Ao contrário, a maioria das pessoas são boas e querem o bem.

 

Nunca sonhei em ser madrasta e ter uma madrasta, mas a vida me colocou nesta posição. Eu, como enteada, vejo em minha madrasta uma segunda mãe e uma amiga e, o fato de aceitá-la é a forma que existe para eu demonstrar respeito pelo meu pai. É a forma de demonstrar para minha mãe que o meu coração é grande demais e que é possível amar as duas e de formas diferentes. Minha querida madrasta Eliza é a mulher que está ao lado do meu pai há quinze anos, cuidando dele. Não seria justo eu querer fazer da vida deles um inferno. Como não desejo isso para a minha vida.

Os enteados deveriam passar a respeitar mais seus pais e parar de culpar as madrastas por tudo que acontece em suas vidas, deveriam também parar de fazer julgamentos. Pois a partir do momento que você julga alguém, você será julgado; a partir do momento que apontar o dedo em direção a alguém terá de volta três dedos das mãos apontados para você. O coração de todo mundo é grande e cabe muitos pais e muitas mães. E a vida é curta demais para viver cultivando o ódio, culpando o pai por uma separação de anos ou até décadas. A vida é curta para não virar a página, para ficar rabiscando em coisas que já deveriam estar superadas. Amar só faz bem! Então: ame. “Perdoe o que puder ser perdoado e esquece o que não tiver perdão”. Engenheiros.