Filho predileto

Segundo a Bíblia, em Lucas, o filho pródigo, ao receber parte dos bens do pai, põe-se a consumir tudo com a vida e com meretrizes, até que seus bens se acabam e ele volta para casa do pai, onde é recebido com muita alegria e festa. Já o filho que sempre esteve trabalhando e ajudando seu pai, se sente injustiçado. É quando o pai lhe diz: “Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se.” Lucas 15:31-32

Nossa realidade atual tem um pouco dessa história; todos conhecem casos em que um filho é mais privilegiado que o outro. Se pensar em uma família qualquer, com três ou quatro filhos, possivelmente encontrarão filhos diferentes em comportamento social e emocional; uns mais rebeldes, outros bem comportados; uns apáticos e uns mais carismáticos; uns religiosos e outros ateus; uns com brilho profissional e outros, vamos dizer, com pouca sorte. É a famosa frase, onde se na própria mão nem os dedos são iguais, por qual motivo os filhos seriam iguais?

O curioso é o motivo que leva alguns pais a preferirem determinados filhos, mesmo sendo estes filhos, em muitos casos, os mais rebeldes, que lhes dão prejuízo financeiro, que nunca aparecem para uma festa de Natal ou de final de ano, que nunca estão com os pais no dia de seus aniversários. Que usam sempre a velha desculpa: não tenho dinheiro para visitá-los, para ligar e para lhe dar um presente qualquer. Mas que nunca esquecem seus telefones, pois, quando o dia a dia aperta, sabem onde pedir ajuda financeira.

E quanto aos filhos que alcançam sucesso profissional, familiar ou pessoal e são respeitados pela sociedade ou comunidade em que vivem? Aqueles filhos que deveriam ser motivo de orgulho para os pais. Aqueles que nunca decepcionam seus pais, que nada querem em troca, só querem dar amor e ter seus pais por perto? Estes, infelizmente, em alguns casos, não são os preferidos ou queridinhos dos pais, e sempre são deixados em segundo plano, e tudo que fizerem ou passarem na vida nunca terão o ombro dos pais ou seus aplausos, afinal são vistos pelos pais, ou por um deles como sortudos ou abastados.

O problema disso reside em uma errada interpretação da realidade, onde os pais enxergam os filhos irresponsáveis como eternas crianças, precisando sempre ser paparicados, e isso acaba tornando esses filhos cada vez mais irresponsáveis. Ao mesmo tempo, estes pais sentem culpa se amarem os filhos que consideram mais responsáveis. É como se amando o filho mais bem sucedido profissionalmente, emocionalmente ou socialmente, estariam menosprezando o filho oposto nestas virtudes. Isso faz com que esses pais não convivam e nem amem, como deveriam, os filhos que não são problemáticos.

O resultado são famílias desestruturadas ou infelizes, que deixam de viver bons momentos em família, para lamentar a sorte na vida de um filho e o azar na vida do outro; pais amargos por viverem exaustivos problemas que os filhos “preferidos” trazem para suas vidas; filhos perfeitos e maravilhosos, mas carentes afetivamente.

O correto e que acontece na maioria das famílias é sabermos amar nossos filhos incondicionalmente; claro que, se vierem a cometer algum deslize, serão responsabilizados por seus atos, pois estamos criando pessoas para a vida, e, para serem bem sucedidas, as pessoas devem ter caráter, nunca mentindo, simulando ou extorquindo um dos pais. Mas jamais saberíamos deixar de amar um de nossos filhos porque ele simplesmente ama os estudos, luta pela vida e quer ser um exemplo de orgulho para seus pais.

E como dizia o mestre Cafunga: “Hoje no Brasil, o errado é que é o certo”.