Mãe, eu não odeio meu pai... e nem a namorada dele.


Todos nós temos amigos ou parentes que passaram ou estão passando por uma crise conjugal ou que acabaram de se separar. Infelizmente, muitos casamentos terminam quando aparece uma terceira pessoa.

Nosso maior problema é pensar que a terceira pessoa é a única responsável pela separação do casal. Acontece que, esta terceira pessoa, pode ter sido apenas a gota d’água para o final de um casamento que já estava frio ou havia sido requentado.

Dizem que quando um casal se separa, mesmo após ter ficado junto por dez anos ou mais, que o casamento não deu certo. Eu, particularmente, não vejo deste modo. Um casamento que durou dez anos, ao terminar, não diria que não deu certo, afinal durou dez anos, deu certo por longos dez anos e isso é muita coisa para a geração atual. Até a geração dos meus avós eu diria que os casamentos eram feitos para durarem eternamente. Mas a nossa realidade tem mudado com o passar do tempo. Os casais não são tão mais tolerantes como antes; explodem-se por pouca coisa; vivem ocupados e preocupados; perdem muito tempo com a internet e com as redes sociais, no lugar de cuidarem um do outro; não namoram mais como antes, pois vivem em festas, eventos ou rodeados de pessoas; passam pouco tempo juntos, pois, embora estejam no mesmo local, trocam a companhia um do outro por telas de computadores, de televisão, de tablets, de smartphones, de notebooks e mais todas as telas que conseguirem inventar para ocupar a vida de pessoas que não querem mais interagir com pessoas reais. Estamos trocando um abraço real, um beijo, um carinho ou um encontro por curtidas e emojis.

 É comum que uma separação motivada pela existência de uma terceira pessoa deixe mágoas, cicatrizes e certa sede de vingança. Mas essa fúria inicial tende a melhorar com o passar do tempo. Ocorre que há pessoas que se prendem a essa dor por anos e anos, chegando ao ponto de não pensar em mais nada a não ser na mágoa gerada pela traição do outro cônjuge. E quando este casal teve filhos em comum, torna-se difícil afastarem-se completamente. E esta convivência, em razão dos filhos, pode ser interpretada, pelo cônjuge que não concorda com a separação, em uma esperança. Essa esperança quando não se transforma em realidade, em muitos casos, vira uma grande desilusão regada a ódio.

O cônjuge inconsolado, contrariado e se sentindo menosprezado, tende a querer que os filhos sintam a mesma raiva que ele e não consegue ver, num primeiro momento, que os filhos também têm a sua dor, seja com a separação dos pais, seja pela ausência diária de um deles. E quando a raiva atinge um determinado patamar, principalmente quando o cônjuge que se sente abandonado e ainda inconformado vê que o seu ex-cônjuge está levando sua vida adiante e na companhia da pessoa que ele julga ser o pivô da separação, a única saída será jogar sua ira nos filhos, caso estes venham aceitar esta terceira pessoa.

Os filhos passam a ter muito medo ao se encontrarem com o pai ou a mãe que está seguindo sua vida ao lado de uma nova pessoa. É um medo de magoar o pai ou mãe abandonado; é um medo de vir a gostar desta nova pessoa; é um medo de ver o pai ou a mãe feliz com esta nova pessoa, e é um verdadeiro terror saber que, ao chegar em casa, o pai ou a mãe lhe fará um verdadeiro interrogatório: onde foram, como esta nova pessoa te tratou, como ela é com seu pai, o que ela conversa, o que eles comeram, o que ela vestia, o que ela disse sobre mim... A vida destes filhos não é fácil, é tensa, triste e chega a ser revoltante. É um caroço na garganta que tem sede de sair e gritar aos quatro cantos: mãe, eu não odeio meu pai, ele se separou de você, mas não de mim... Mãe, a pessoa que está com ele não é má como você me disse. Mas, na maioria dos casos, essa vontade de gritar ficará muda pelo medo da pessoa que mais deveria passar segurança, a própria mãe ou o pai.