Você se acostuma com tudo, até mesmo com a ausência

As pessoas se acostumam... É difícil dizer e afirmar, mas, acostumamo-nos: com a perda inesperada de um ente querido, com a ausência de um filho que se casou, que se mudou para longe ou se distanciou por vontade própria. Acostumamo-nos com alguém que, por motivos diversos, afastou-se ou tivemos que nos afastar para pararmos de sofrer, de sermos apedrejados e magoados.

Entre familiares, acontece com grande frequência a necessidade de um afastamento temporário, seja para que um parente aprenda a respeitar até onde vai seus direitos e começa os direitos do outro familiar; seja para que filhos do primeiro casamento aprendam que os pais não são obrigados a ficarem eternamente amarrados a casamentos de “fachada” ou com data de validade expirada, e que precisam aprender a respeitar a vontade do pai que quer se ausentar e viver uma nova vida com outra pessoa; que parentes problemáticos parem de atirar pedras no alvo errado, ou seja, na atual esposa ou atual marido, quando, na verdade, não existem alvos, apenas um casamento que teve um ponto final. É preciso acostumar-se com a nova realidade, do contrário, a vida torna-se um fardo para quem não se acostuma, como também, para quem quer segui-la adiante.

 Às vezes se torna necessário um tempo entre irmãos para que cesse aquela rivalidade que veio da infância e estendeu-se erroneamente para a fase adulta, passando de simples rivalidade infantil para uma grande disputa entre adultos. Existem irmãos que simplesmente não aceitam a ideia de que o outro se saiu melhor na vida, teve mais sorte, mais força de vontade, mais persistência em vencer e simplesmente, apegam-se ao velho, à infância, onde comiam na mesma panela e dormiam sob o mesmo teto. O tempo passa, as coisas mudam, uns se dão bem e outros nem tanto, por isso a necessidade louca de se acostumar ao novo, do que correr o risco de viver uma vida de lamentos e amarguras.

Até mesmo em inventários é preciso um tempo para se colocar no lugar do outro e acostumar-se com a ideia de que infelizmente nada mais será como antes. Um irmão que não precisa dos bens que lhe foi deixado ou que tem aquele apego sentimental necessita acostumar-se com a ideia de que o ente querido se foi, e que agora tudo será diferente. E que irmãos não tratarão a herança da mesma forma; sempre haverá aquele irmão que necessitará dos bens para sobreviver devido à ausência do ente querido, ou, mesmo que não haja necessidade, sempre existirá aquela pessoa que pensa diferente e deseja  usufruir da sua herança como bem lhe aprouver. Mas em inventários, dificilmente um se coloca no lugar do outro; rivalidades, ressentimentos e egoísmos vêm à tona, e nesse campo é difícil acostumar-se com certas ideias, mas será necessário acostumar-se a elas. Acostumar-se com a ideia de que o que foi não é mais e daqui para frente vai ser tudo diferente.

No campo da reconciliação, quando nos acostumamos com a ausência de um ente querido, mas que ainda se encontra entre nós, porém, por motivos diversos, está distante fisicamente, temos que ficar atentos para que essa ausência não perdure por tempo suficiente até que uma reconciliação seja impossível, pela falta física de uma das partes, ou seja, pela morte. Por isso temos que saber distinguir o que vale a pena acostumar-nos a manter distância, daquilo que apenas devemos acostumar-nos temporariamente a mantermos uma distância, para que esta sirva de aprendizado para uma ou ambas as partes.

E quando existe uma possibilidade dessa ausência virar presença, ou você se agarra a ela ou novamente irá se acostumar. Os ânimos se acalmam, aquela vontade repentina de voltar ao que era passa muito rápido, afinal, acostumamo-nos com aquela ausência, pois o tempo volta a correr e novamente acostumamo-nos a viver sem aquele ente que se encontra ausente em nossas vidas, pela distância física.

Por isso, é bom saber dar o primeiro passo; isso não quer dizer que você deva assumir qualquer tipo de culpa, apenas que é mais sábio. Mas com a idade, a gente para de correr atrás daquelas pessoas que insistem em errar, em nos magoar e que novamente precisamos dela nos ausentar, que seria o mesmo que dar um tempo, depois de outro tempo e assim sucessivamente. E essa rotina de dar o primeiro passo e logo em seguida arrepender-se, gera uma frustração, que com o tempo faz com que endureçamos e fiquemos apenas nesse primeiro passo, e que um dia se torna o último passo. É nesse momento que entra a determinação da outra parte em repensar que já está na hora de parar de magoar, de “encher o saco”, de causar problemas e de ser imaturo; pois a outra parte precisa ficar ciente de que o tempo deixa as pessoas mais velhas ao ponto de um dia nem sequer estarem mais dispostas a dar seja o primeiro seja o último passo.

“Faça de sua ausência o suficiente para que alguém sinta sua falta,

Porém, não a prolongue por muito tempo, pois este alguém poderá perceber que pode viver sem você”.Vilson Kdully