Caridade com o chapéu alheio

Isso acontece muito com quem recebe pensões sem nada dar em troca: Dão presentes para todos, agradam amigos e parentes e chegam até mesmo a comprar “amizades e favores”. Mas tudo com o chapéu alheio!

A expressão dar a outrem usando do chapéu alheio lembra a lenda de Robin Hood, herói mítico inglês, um “fora da lei” que roubava dos ricos para dar aos pobres, nos tempos do rei Ricardo Coração de Leão. Era ajudado pelos amigos João Pequeno e Frei Tuck, entre outros moradores da região. Ficou imortalizado como “Príncipe dos Ladrões”.
Como cita Antonio Carlos Barro: “O ser humano tem uma capacidade extraordinária de promover-se à custa de outros seres humanos. A promoção através do método comum e árduo do trabalho de todos os dias é facilmente substituída pela esperteza e pelo jeitinho. Para se aparecer ou mostrar-se benevolente a pessoa não se faz de rogada, principalmente nos dias atuais quando as necessidades são muitas. São tantos projetos que solicitam a nossa ajuda que ficamos apalermados diante do enorme desafio de melhorarmos a nossa sociedade. Fazemos o que podemos e fazemos com os poucos recursos que temos. O que não pode acontecer é a caridade com chapéu alheio. Além de ser de tremendo mau gosto, é uma clara demonstração de falta de caráter cristão. Se o chapéu é alheio, ele não deveria ser utilizado de maneira alguma, e se é utilizado alguma coisa está sendo defraudada do proprietário do chapéu”.
Segundo o psicanalista Mario Quilici essa prática é característica do narcísico. Narcisista é aquela pessoa que vê o mundo através de si mesmo. Ela é a referência para todas as coisas. Os narcisistas são especialistas em roubar créditos alheios, afirma ainda o mesmo psicanalista. Uma boa norma para desmascarar o fazedor de caridade com o chapéu alheio é a lembrança do velho ditado: “Esmola, quando é muita, o santo desconfia”.
Mas por que isso acontece e ninguém nada diz? Primeiro porque a vida anda muito corrida e as pessoas mal tem tempo para si mesmo e sua família e o que dirá de tempo para saber se o que lhe é dado vem do suor do João ou da Maria? Toda caridade, geralmente, não se pergunta a raiz da fonte, apenas aceitamos a caridade e agradecemos. Mas é aí que nasce os famosos “vigaristas”. Aqueles que não trabalham, vivem às custas de pensões de ex maridos, pais ou do governo e querem ser populares, entrarem para a sociedade, se passarem por boas pessoas, pessoas caridosas e exemplares e cheias de amigos.

Mas tudo é questão de tempo até a fonte secar e as coisas se apertarem, nesse momento o dito chapéu alheio estará vazio e não mais se poderá fazer bonito para os amigos e a sociedade. Daí em diante, é que se conhecem quem são os amigos de verdade. Há uma frase da qual não me recordo o autor que diz: “Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade”. Muitas pessoas ficam abismadas quando descobrem que tudo que recebiam de agrados, mimos, presentes e até de favores inusitados, como: Pode deixar que saio agora mesmo daqui e viajo 300, 400 ou 5000 Km para levar seu filho até a faculdade ou médico ou para passear. Essa pessoa “cheia de favores concedidos aos outros” é tida como popular, amiga e verdadeira companheira, mas na maioria das vezes esses presentinhos ou favores estão sendo bancados pelo dinheiro alheio. E o coitado que está bancando tanta caridade não aparece em nada, chegando até mesmo a ser criticado como aqueles que se distanciou da família, dos filhos, que não quer saber de ajudar a nada e a ninguém... 

É comum mulheres separadas que recebem fartas pensões mentirem aos sete ventos que aquele valor lhe pertence, que foi um acordo, que ela também ralou para ter direito aquela quantia mensal que lhe é dada e o “devedor” nada mais faz que sua obrigação. E as pessoas, mesmo sabendo que não é verdade, gostam de acreditar, pois no fundo são maliciosas. Já tive a infelicidade de ouvir de filhos separados que tudo que tem lhes foi dado pela mãe, que o pai é um ausente e mãe a heroína. O pai sem forças ou até por nojo de tanta malícia prefere se calar, e como diz o velho ditado, quem cala consente e a ex reina por anos e anos como a caridosa, bondosa e a vítima da situação.

Mas como a terra é redonda e tudo volta a seu devido lugar, não há benefícios eternos, a não ser os bancados pelo governo e brevemente a sociedade saberá de quem era o dinheiro do qual foram dados tantos presentes e feito tantos favores: Do chapéu alheio.