Os estragos de uma separação

Quando se sobram corações estraçalhados, cacos de vidro e lágrimas no chão

É comum amigos de infância ou adolescência ao se encontrarem após quinze, vinte anos ou mais, quererem saber da sua vida, da sua profissão e da sua família. Pedem para ver retratos dos pais e dos irmãos para verem como cresceram e ficaram. Inicialmente, os amigos riem ao se recordarem das coisas boas, mas quando perguntam pelos pais e estes, após vinte anos de casamento sólido e exemplar, se separaram vem aquele choque entre os amigos, só se ouve porquês e porquês?
Geralmente falamos em crises de casamento: A primeira vem logo no início, quando o casal passa a se conhecer de verdade, nesse momento é que se conhecem as diferenças sociais, de criação, manias e defeitos. Uma simples toalha molhada largada em cima da cama todos os dias vira um dos motivos que vão se acumulando até que em menos de dois anos o casal já se encontra separado. A segunda fase é a famosa e temida crise dos sete anos, onde a relação do casal é dividida pela atenção dos filhos ou da rotina pela falta deles. E a terceira, acontece, geralmente, por volta dos quinze ou vinte anos e advém do cansaço do dia a dia, da luta para conseguirem tudo que planejaram, pela rotina, e talvez por uma certa implicação com as manias do outro, tudo fica chato, sair é cansativo, passear à noite é coisa do passado, ir para um hotel fazenda é gastar dinheiro desnecessariamente e muitos casais criam o hábito de economizar como se fossem ter uma vida eterna. É talvez nessa segunda ou terceira crise que entra uma terceira pessoa no casamento, e o homem ou a mulher, que antes estava indisposto a sair, a gastar e a passear, muda radicalmente seus hábitos e passa a fazer com no novo parceiro tudo que dizia não poder fazer devido ao cansaço ou por querer economizar para o bem da família, como fazer longas viagens, grandes compras, passeios rotineiros, comprar móveis novos, uma casa linda e sonhada, afinal com oNOVO RELACIONAMENTO a pessoa pensa que fica uns vinte anos mais jovem.
Nesse momento a revolta se instala, e junto a ela vem a angústia, a raiva, a culpa por ter economizado tanto e para outra pessoa que nem sequer conhece, a vontade de achar o culpado, as tentativas frustradas de voltar ao que era antes. Mas não vem à mente os sinais de que o relacionamento deveria ser priorizado, que o dinheiro deveria vir em prol do casal, do contrário, quando vem a separação, tudo se divide e a parte que fica com aquele que deixou o casamento vai ser utilizada a favor do novo ou nova parceira. Porém, esse novo casamento, também completará seus sete ou quinze anos e se não for bem conduzido pela segunda vez, acabará da mesma forma que o primeiro.
Os tufões e tornados: Os filhos passam a ser uma segunda preocupação e com isso, aqueles que não tem uma boa estrutura emocional podem seguir caminhos sem volta, procurar refúgio em drogas, bebidas, ou em relacionamentos destrutivos. A família começa a se despedaçar. Os aniversários dos filhos e depois de alguns anos, os aniversários dos netos, chegam a passar despercebidos. Presentes para os filhos ou netos, quando o atual parceiro do pai ou da mãe é o dominante, chegam a ser presentes meio loucos e ridículos. Os pais raramente visitam seus filhos, afinal não se tem mais uma família.
Os álbuns de aniversários são esquecidos em algum maleiro de algum guarda-roupa, não tem mais importância, a não ser tristes lembranças. A felicidade nunca mais estará presente, o sorriso sincero, o abraço de pai e filho, tudo isso fica perdido no tempo, a família é apenas uma página de um longo diário, às vezes muitas páginas, mas que ficaram no início ou no meio do diário. Pois novas páginas passam a ser escritas, com novos atores, novos lugares, passeios, sonhos, enfim, uma nova vida.
O ente que foi abandonado torna-se uma pessoa com um coração angustiado, cheio de medo, insegurança e sem esperança. Por mais que venha a constituir uma nova família, ainda assim será aquele passarinho machucado que caiu do ninho ou que dele foi derrubado. Seus filhotes voaram para lugares distantes e, na maioria das vezes, preferem fingir um distanciamento forçado que ter que olhar nos olhos daquele, seja pai ou mãe, que morreu em parte, que vive amargurado, sem aquela vontade de promover festas com churrascos e sanfoneiros, como nos tempos que os filhos ainda eram crianças e corriam felizes entre as árvores e parentes das duas famílias, pai e mãe, e sem imaginar que um dia isso tudo lhes seria tirado, seria apenas uma parte de passado triste que não vale mais a pena ser lembrado.
"Toda separação é triste. Ela guarda memória de tempos felizes ( ou de tempos que poderiam ter sido felizes....) e nela mora a saudade." Rubem Alves